Corpos Estranhos

Projetos
Agosto 2019

“Corpos Estranhos: o Rio de Janeiro continua lindo e opressor” é um projeto de formação e suporte no campo das artes e do ativismo estético-político desenhado para promover a visibilidade, capacitação e auto-representação de jovens artistas em condições de vulnerabilidade, entre elas pessoas trans, não binárias, indígenas e negras. Este projeto foi concebido como uma reação ao assassinato dx artista Matheusa Passareli e a partir da nossa permanente indignação diante da violência contra corpos historicamente submetidos a violações de direitos e a condições precárias. Durante o mês de agosto, o espaço da Despina irá funcionar como um centro de convivência e ativação coletiva, com um programa de residências e uma agenda pública que inclui cineclube, diálogos e oficinas. Mais detalhes sobre a programação das atividades serão divulgadas em breve.

O Programa de Residências oferece:

  • Ateliê coletivo para 4 artistas que moram na região metropolitana do Rio de Janeiro
  • Suporte curatorial (encontros individuais e em grupo)
  • Encontros semanais para acompanhamento de projetos
  • Suporte administrativo e logístico
  • Bolsa de participação no valor de R$1.500 (mil e quinhentos reais) por artista
  • Verba para produção no valor de R$ 500 (quinhentos reais) por artista
  • Mostra final para apresentar os trabalhos e pesquisas desenvolvidos pelxs artistas durante a residência

Após convocatória aberta realizada durante os meses de abril e maio, nosso comitê de seleção trabalhou na apuração e análise das inscrições recebidas, tendo como norte a diversidade de corpos, subjetividades e práticas de mediação de sentidos e interlocuções com o público, além da afinidade das propostas com o conceito do projeto. Xs artistas selecionadxs para participar do programa de residências foram: Agrippina R. Manhattan, Iáh Bahia, Jade Maria Zimbra e Linda Marina.

 

SOBRE XS ARTISTAS

 

“Me chamo Agrippina R. Manhattan, sou artista, professora e travesti. Sinto que estas são as palavras que mais se aproximam daquilo que entendo por mim mesma. Me interesso em me interessar pelas coisas, desconfiar das palavras e entender o que já estava em mim antes delas. Me interesso em entender como esse mundo já existia antes de mim, como as coisas já foram organizadas e onde me insiro, minha experiencia é tanto única quanto banal, e pela infinidade do ser me conectando a tudo o que é maior. É isso que me interessa e creio que meu trabalho parta daí. Tenho muito desejo de reorganizar o mundo, destruir e criar, gênesis e apocalipse em 1,78 cm com longos cabelos negros.

Autoficção tornada imaginação se infiltrando no real, criei a mim mesma e posso criar o que for. Meu trabalho às vezes se materializa, me interesso muito por poesia, acho um jeito honesto de lidar com a mentira das palavras, as coisas ficam mais próximas do coração (isso mesmo é uma mentira, mas posso crer). Gosto de escutar, por mais que nem sempre consiga. Aprender leva tempo, ainda aprendo e quero aprender sobre tudo. Eu posso, faço parte. Saí de São Gonçalo no dia 17 de março de 2019, realizei ali um salto ontológico que nunca me pareceu sequer possível imaginar, parecia um sonho. Agora entendo que o sonho é real, ele é futuro, profecia e palavra. Acredito que quanto mais conhecer mais sonharei, e quando mais estiver junto com outras pessoas mais aprenderei. Por isso entendo hoje que a posição de professora se coloca como única possibilidade para o meu ser (entendendo ensinar como um processo de ensinar-aprender)”. Mais informações: http://agrippmanhattan.wordpress.com 

 

Iah Bahia mora em São Gonçalo (RJ). Formade em Design de Moda, estudou na Escola de Arte e Tecnologia Spectaculu e na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage. Atualmente participa do Programa de Formação “Exercício Experimental da Liberdade” na EAV do Parque Lage. Seu processo de pesquisa desdobra-se na experiência “orgânica” nos centros urbanos, repensando o lugar da natureza na cidade. Seu trabalho se dá na forma de imagens, vídeos, esculturas e instalações. Também tem trabalhado com cimento, investigando a relação dessa matéria que reveste a superfície urbanística e que, consequentemente, apaga memórias ancestrais. Mais informações: http://www.iahbahia.ml

 

 

Nascida e moradora do Jardim Catarina, São Gonçalo (RJ), Jade Maria Zimbra iniciou suas pesquisas artísticas no teatro e encontrou desdobramentos na música, na dança, nas artes plásticas, na poesia e no audiovisual, reunindo suas descobertas através de experimentações performáticas.

Por meio dessas diversas linguagens, a artista busca elos e diálogos com memórias ancestrais e futuristas, tensionando questões que atravessam e ultrapassam corpo-mente-espírito sob a perspectiva de gênero e raça.

 

 

Linda Marina nasceu no Jardim Apurá, periferia da Zona Sul de São Paulo, e mudou-se ainda nova com a sua família para Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde começou cedo a desenvolver suas primeiras ações artísticas e a movimentar seu entorno. Foi uma das integrantes do Movimento Nefelista, grupo de jovens que se reuníam para fortalecer a cena local na região, deixando uma marca registrada na produção artística da Zona Oeste. Dá um giro por vários cantos da cidade, estudando, fazendo e produzindo teatro. Em 2014, chega ao Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro e lá começa a fazer parte da UPAC – Universidade Popular de Arte e Ciência e a atuar no Teatro de DyoNises, ambos com sede dentro da ocupação artística Hotel da Loucura, projeto que transformou dois andares de enfermarias desativadas dentro do antigo Hospital Psiquiátrico Pedro II, conhecido inicialmente pelo terrível nome “Hospital das Alienadas” e atualmente chamado de Instituto Municipal Nise de Silveira, uma homenagem à doutora Nise da Silveira, que trabalhou no lugar e foi a precursora na humanização do tratamento psiquiátrico dentro do campus, deixando um grande legado que até hoje tem inúmeros desdobramentos.

Durante três anos atuou em diversas frentes dentro da proposta da UPAC, desenvolvendo inúmeras ações, e no período de um ano morou dentro do hospital, totalmente imersa na luta de transformação da lógica manicomial, que ainda se faz presente, hoje por meio da alta dopagem de medicação. É uma das criadoras do Jornal ReorgaNise – impresso pela luta antimanicomial – e que nasceu com o objetivo de ser um canal de comunicação para os internos do Hospital e de preencher um lugar de diálogo entre os arte-cientistas – interessados nas propostas de mudanças – e os que por inúmeros motivos fazem a manutenção da lógica manicomial, médicos e trabalhadores que não buscavam uma transformação nas formas de “tratamento da saúde mental”.

Formada em realização e produção audiovisual na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Linda possui uma formação interdisciplinar que passa por jornalista independente, atriz, performer, pesquisadora e cineasta. Atua também nas áreas de direção criativa, roteiro, produção, edição de vídeos e comunicação.

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Este projeto foi concebido pela Despina em colaboração com Gabe Passareli. É financiado através de uma doação organizada por Alexander e Chantal Maljers-van Erven Dorens em homenagem à Matheusa Passareli, que participou do projeto Bison Caravan Brasil, coordenado por Chantal e que aconteceu na Despina em março de 2017.

“Este projeto é para homenagear Matheusa, para nós um exemplo de amizade, inspiração e união de diferenças. Matheusa – com um espírito puro e aberto – juntou-se a nós no percurso de intercâmbio artístico da Bison Caravan Brasil em março de 2017. Foi um dos seus primeiros projetos artísticos. Aprendemos e rimos juntos e Matheusa floresceu no processo criativo, trabalhando em conjunto com muitos de nós, especialmente com Tanja Ritterbex. Na arte da performance, elas exploraram suas identidades e a fluidez de seus corpos. O espírito de Matheusa permanecerá em nossos corações e percorrerá os campos Elyseanos no núcleo do rebanho da Bison até o fim dos tempos.” (Chantal Maljers-van Erven Dorens)

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FICHA TÉCNICA

Concepção: Consuelo Bassanesi, Chantal Maljers-van Erven Dorens, Gabe Passareli
Terapeuta ocupacional: Gabe Passareli
Acompanhamento curatorial dos processos durante a residência: Guilherme Altmayer, Jean Carlos Azuos, Keyna Eleison, Lorran Dias
Comunicação (Web site, redes sociais e documentação do projeto): Frederico Pellachin
Gestão Financeira: Clarice Goulart Corrêa
Produção: Pablo Ferretti