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Cecilia Vilca

Artistas em Residência
01.01.2016 - 29.02.2016

Cecilia Vilca vive e trabalha em Lima, Peru. É Mestre em Artes Digitais pela Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha) e Bacharel em Design Gráfico pela School of Design Toulouse-Lautrec (Lima, Peru). Também obteve uma bolsa integral em Geo-Ciência da Informação e Design de Atlas, da Faculdade de Geo-Ciência da Informação e Observação da Terra (ITC) – Universidade de Twente (Holanda). A sua atividade artística está centrada na criação de peças que utilizam a tecnologia como eixo principal, do conceito à realização. Além disso, procura explorar as relações entre tecnologia e gênero, sociedade e natureza. Seu principal objetivo é incentivar a reflexão do observador através de um método definido pela artista como uma “poética da revelação”. Neste âmbito, a tecnologia permite a revelação de um processo ou de um comportamento que a sociedade encara como natural. Os projetos de Cecilia vão desde aqueles que são construídos com a participação do público até outros que combinam métodos científicos, como a microscopia eletrônica e a cartografia. Tudo isto está munido de um esquema programático, que controla o discurso e a presença da obra no tempo e no espaço. O resultado são obras não lineares, carregadas de modularidade, incerteza e automação. Cecilia já expôs e lecionou no Peru, México, Bolívia, Argentina, Espanha, Cuba, Chile e Noruega. Durante a sua participação no Programa de Residências Despina, Cecilia desenvolveu o projeto “Future Relics”, uma investigação sobre o poder dos objetos como “recipientes”, dentro dos quais adicionamos informações e conteúdos subjetivos. Este projeto também examina os dados que os objetos já carregam e o que é mutável ou “contaminado” pelo ambiente, por suas composições químicas, etc. Cecilia procurou combinar aqui métodos científicos com a visualização de dados e com a arqueologia, uma espécie de confronto entre certas crenças e a frieza dos dados físicos.Um choque com o futuro. Pesquisa, curso, processo. Recordações de fé.

Texto curatorial
por Bernardo José de Souza

A artista peruana Cecília Vilca desenvolve sua pesquisa na fronteira entre arte e ciência, buscando tensionar as dimensões criativas em ambas as disciplinas. Os ingredientes de ficção encontrados na arte migram para os procedimentos científicos relativizando a percepção do universo tal qual percebido pelo homem mediante seus cinco sentidos.

Ao tomar a ideia de relíquia como seu objeto de estudo, a artista investiga as qualidades culturais e religiosas atribuídas a esses elementos/objetos partindo da sua própria materialidade, contrastando assim a natureza humana e suas veleidades transcendentais à fisicalidade do mundo em que habitamos. Ao investir a natureza de força divina, buscando inspiração na ritualística da Umbanda, Vilca indaga quanto às leis de um mundo que conhecemos apenas na superfície, mediante a visibilidade de suas feições, e leva ao extremo a sanha investigadora da ciência ao desenvolver um aparato tecnológico que nos permitiria escrutinar o universo física, química e matematicamente.

Visível e invisível se contrapõe como faces de uma mesma moeda, jamais visíveis simultaneamente. Ora se vislumbra a abstração mística, ora a realidade “palpável” da ciência. Ambos os universos coexistem, embora ocupem planos distintos.

A realidade dos laboratórios, com a qual a artista tem grande familiaridade – sua família é proprietária de um laboratório -, e experiência afetiva e extra sensorial dos rituais místicos ganham articulação numa mesma dimensão pela via literária, expediente usado por Vilca para dar unidade ao projeto: ela reúne informações à maneira de um cronista, relacionando dados e ficcionalizando procedimentos que acabam por esbarrar nos meandros da própria burocracia, antídoto maior à potência criativa e às liberdades da imaginação. Ao enviar suas mostras ao laboratório no Peru, para que um microscópio revelasse a natureza invisível dos elementos, os correios vetaram o ingresso das relíquias no país alegando tratar-se de bruxaria. A anedota acaba por revelar o quão permeável ainda somos aos meandros místicos, em que pese a lógica cartesiana a reger o transcurso de nossas vidas.

 

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