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Arte e Ativismo na América Latina (2017)

Projetos
Ano II - 2017

ARTE E ATIVISMO NA AMÉRICA LATINA é um projeto da Despina, realizado em parceria com a organização holandesa Prince Claus Fund, que se estende por três anos (2016, 2017 e 2018).

A cada ano, um tema norteia uma série de ações que incluem ocupações, workshops, conversas, projeções de filmes, exposições, encontros públicos com nomes importantes do pensamento artístico contemporâneo e um programa de residências artísticas.

Nesta segunda edição, o projeto tem como tema o CORPO.

I

A um só tempo, o corpo constitui a instância essencial de nosso vínculo com a natureza e a possibilidade mesma de transcendê-la, avançando assim rumo àquilo que as civilizações ocidentais entendem por esfera cultural ou segunda natureza. Por outro lado, este mesmo corpo (que fique claro, corpo = corpo + mente) está sempre a relembrar-nos de sua condição orgânica e perecível, muito embora nossa inteligência e capacidade de superação dos limites impostos pela biologia nos tenham levado a investi-lo tanto de qualidades simbólicas e de predicados políticos e morais, quanto de atributos externos à sua constituição primeira, quais sejam, um conjunto de tecnologias que parecem emancipar-nos – vale dizer, apenas parcialmente – de nossa inafastável natureza animal.

Ao longo da história, inscreveram-se nos corpos e suas biografias as marcas das tantas e sucessivas batalhas entre o homem e a natureza e entre o homem e o próprio homem. Mas a esta unidade básica de contato com o mundo, sucederam outras formas de articulação da espécie humana, estruturas avançadas na relação dos homens entre si, e deles com o ambiente no qual lograram desenvolver-se: bandos, tribos, sociedades e civilizações emergiram para conformar um corpo maior, capaz de fazer face ao conjunto de desafios impostos pelo medo e pelo risco da morte e da extinção.

Eis que à certa altura do processo civilizatório, o homem entendeu que poderia submeter outros homens ao seu próprio jugo através da força e do Estado, estabelecendo a partir de então relações desiguais de poder que não mais seriam afastadas do curso de nossa trajetória sobre o planeta. Na esteira dessas “conquistas”, muitos foram os povos, as raças, os gêneros e as culturas a serem subjugadas por certos grupos no afã de alcançarem as instâncias máximas de poder. E assim chegamos ao estágio atual, quando a arquitetura das relações humanas desobedece às leis da civilidade supostamente alcançada, ora nos remetendo, em ritmo de retrocesso, ao tempo em que vivíamos como povos bárbaros, submetidos à lei do mais forte, ora nos capturando nas solertes e insidiosas instâncias do biopoder.

II

O corpo foi domesticado. Cultura, religião, moral, política, sucessivas colonizações, gênero-normatizações, prisões e manicômios, psiquiatria, moda, medicina plástica, maquiagens virtuais e perfumarias afins, há muito vem determinando como o corpo deveria ser ou se comportar. Este corpo, via de regra, se apresenta como macho, branco, ocidental, produtivo, reprodutivo, são, eficiente, higienizado. E é esse mesmo corpo que produz – e é a partir dele que são construídas – as narrativas históricas totalizantes. Os demais corpos são inferiorizados, reprimidos, marginalizados, criminalizados. Poucos são os que nascem nesse corpo ideal, muitos outros tentam nele se encaixar, e há, ainda, aqueles que expõem seus corpos não convencionais de maneira frontal, aberta e radical.

Diante de um mundo em que moralismo e política estão cada vez mais vinculados, o que propomos é lançar luz sobre esses corpos radicais: o corpo negro, queer, transgressor, político, feminista, libertário, sujo, dissidente, amoral, pervertido, modificado, não binário. Corpos que são potentes e afirmativos. Corpos que resistem.

Procuramos por corpos e mentes rebeldes que, ao não se sujeitarem aos dispositivos de dominação construídos ao longo da história, carreguem uma força dinâmica e contestadora capaz de abalar, através de micropolíticas de resistência, as estruturas consolidadas de controle e subordinação. Procuramos por corpos-sujeitos para que novas narrativas – mais democráticas, transgressoras e multiculturais – sejam assim difundidas, amplificadas e, portanto, ouvidas.

Em 2017, o projeto se estende de maio a outubro. A programação completa de todas as ações, bem como os artistas e ativistas selecionados para o programa de residências (que acontece em agosto e setembro) serão anunciados em breve. Nesta primeira fase do projeto (maio e junho), os artistas Rafael Bqueer e Lyz Parayzo foram convidados a ocupar ateliês na Despina e desenvolver suas pesquisas e práticas, que abordam questões relativas a corpo e gênero.

ARTE E ATIVISMO NA AMÉRICA LATINA

Concepção e direção do projeto: Consuelo Bassanesi
Concepção e desenvolvimento do tema: Consuelo Bassanesi e Bernardo José de Souza

Produção: Pablo Ferretti
Comunicação (fotos, vídeos, website e mídias sociais): Frederico Pellachin
Gestão Financeira e Jurídica: Clarice Goulart Correa
Comitê de Seleção (Programa de Residências): Consuelo Bassanesi, Bernardo José de Souza e Pablo León de la Barra

Confira aqui a cobertura completa da primeira edição do projeto, que aconteceu em setembro e outubro de 2016.

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Versión en español

I

El cuerpo constituye, al mismo tiempo, una instancia esencial que nos vincula a la naturaleza y a la posibilidad misma de trascenderla, avanzando hacia lo que la civilizaciones occidentales comprenden por esfera cultural o segunda naturaleza. Por otro lado, el mismo cuerpo (que esté claro: cuerpo = cuerpo + mente) nos recuerda siempre su condición orgánica y perecedera, aunque nuestra inteligencia y capacidad de suspensión de los límites impuestos por la biología nos hayan llevado a asignarlo tanto de atributos simbólicos, políticos y morales, como de atributos externos a su condición primera: un conjunto de tecnologías que parecen emanciparnos – al menos parcialmente – de nuestra condición animal.

A lo largo de la historia, las huellas de tantas batallas entre el hombre y la naturaleza, o mismo del hombre contra el propio hombre, se inscriben en los cuerpos. Pero a esta unidad básica de contacto con el mundo, también ha pasado otras formas de articulación de la especie humana, estructuras avanzadas en la relación de los hombres entre sí y el ambiente en el que han logrado desarrollarse: grupos, tribus, sociedades y civilizaciones surgieron para dar forma a un cuerpo más grande, capaz de hacer frente al conjunto de desafíos impuestos por el miedo y por el riesgo de la muerte y de la extinción.

En cierto momento del proceso civilizatorio, el hombre comprendió que podría someter a otros a través de la fuerza del Estado, estableciendo relaciones desiguales de poder que no se encuentran apartadas del curso de nuestra trayectoria sobre el planeta. En la estela de esas “conquistas”, fueron muchos los pueblos, las razas, los géneros y culturas subyugados por ciertos grupos que ansiaban las instancias máximas de poder. Y así llegamos aquí, en el marco de una arquitectura de las relaciones humanas que desobedecen a las leyes de la civilidad supuestamente alcanzada, sea remitiendonos al tiempo en el que vivíamos como pueblos bárbaros, so el yugo de los más fuertes, sea capturándonos en las sagaces e insidiosas instancias del biopoder.

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II

El cuerpo fue domesticado. La cultura, la religión, la moral, la política, las sucesivas colonizaciones, el género, las normatizaciones, las cárceles, los manicomios, la psiquiatría, la moda, la cirugía plástica, los maquillajes virtuales, las perfumerías y similares hace mucho que vienen determinando el comportamiento del cuerpo. Este cuerpo, por regla general, se presenta como macho, blanco, occidental, productivo, reproductivo, sano, eficiente, higienizado. Este mismo cuerpo que produce – y a partir de él que son construidas – las narrativas históricas totalizantes. Los demás cuerpos son inferiorizados, reprimidos, marginalizados, criminalizados. Pocos son los que nacen en dicho cuerpo ideal, muchos otros intentan encajarse en él y hay, todavía, quienes exponen sus cuerpos no convencionales frontal, abierta y radicalmente.

Delante de un mundo en el que el moralismo y la política están cada vez más vinculados, lo que proponemos es arrojar luz sobre estos cuerpos radicales: el cuerpo negro, queer, transgresor, político, feminista, libertario, sucio, disidente, amoral, pervertido, modificado, no binario. Cuerpos que son potentes y afirmativos. Cuerpos que resisten.

Buscamos cuerpos y mentes rebeldes que no se sujeten a los dispositivos de dominación construidos a lo largo de la historia, y que, por ello, tengan una fuerza dinámica y contestadora capaz de erosionar las estructuras consolidadas de control y subordinación por medio de micropolíticas de resistencia. Buscamos cuerpos-sujetos para que nuevas narrativas – más democráticas, transgresoras y multiculturales – sean, así, difundidas, amplificadas y, por lo tanto, oídas.

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