Dissenso e Destruição

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14.06.2018 - 25.06.2018

Arte e Ativismo na América Latina – ano III (2018)

Neste terceiro ano do ciclo Arte e Ativismo na América Latina, nos propomos a pensar essas formas de ação como ferramentas políticas, capazes de sacudir discursos hegemônicos tidos como inabaláveis. Práticas que se originam em zonas de desconforto e desacordos, que emergem frente às urgências: discordâncias que confluem em combate às injustiças sociais e violências institucionalizadas – dissenso.

Tais descontentamentos evoluem por meio de ações estéticas e políticas de denúncia e contestação, articulando intenção de desestruturação das dominâncias por meio de gestos de reconstrução da percepção. Abrem, dessa feita, passagem para novas formas políticas de subjetivação – destruição.

Neste encontro de artistas latinx americanxs tornou-se evidente o quanto compartilhamos emergências sociais e, para além dos contextos específicos, fica claro o enorme abismo entre os vizinhos, visto a ínfima interlocução que estabelecemos entre nós. Celebramos, portanto, a possibilidade do encontro de Ana Lira (Brasil), Danitza Luna (Bolívia) e Felipe Rivas San Martín (Chile) tornar-se possível neste espaço e tempo.

Estes três artistas e ativistas, cujas práticas colaboram na diluição das fronteiras entre artes e ativismos, configuraram aqui uma mostra não apenas expositiva, mas, para além disto, realizada como um emaranhado em que diversas frentes de agenciamentos se entrelaçaram, desenvolvendo estratégias de atuação em rede, por meio de articulações coletivas para pesquisas conjuntas.

Ana Lira pergunta: porque ativamos mecanismos de politização a partir de uma linguagem militarizada? A artista, que decide não se colocar mais na linha de tiro da polícia em suas ações, propõe pensar um distanciamento de práticas bélicas, assim como a invisibilidade como lugar de articulação. Através de agenciamentos coletivos, produção de bandeiras e letreiros e intervenções na rua, propõe refletir sobre o quanto o desarmamento do verbo e a manutenção de redes de cuidado podem estabelecer meios não cooptáveis no fazer político.

Já o movimento anarco-feminista boliviano Mujeres Creando, aqui representado por Danitza Luna, propõe a pixação “Nossa vingança é sermos felizes” como uma metodologia para ativação política a partir do campo simbólico. Através de uma série de encontros com mulheres para práticas criativas, denominadas “Gráficas Feministas”, este processo produz confluências entre diversos enfrentamentos ao machismo. As participantes – muitas sem experiência prévia com produção gráfica – expressaram sentimentos e revoltas através de desenhos e escritos que resultaram em 75 cartazes, reunidos em um conjunto de impressos compartilhado entre as participantes, para serem distribuídos gratuitamente.

Enquanto isso, Felipe Rivas San Martin apresenta resultados de sua pesquisa “Homosexual Data”, sobre a construção do sujeito homossexual através do tempo (data) e de dados biométricos (data) a partir de dois ‘estudos’. O primeiro, de 1938, identificaria homossexuais (frequentadores da praça Tiradentes) a partir da forma triangular de seu conjunto de pelos pubianos, e o outro, de 2017, via algoritmos de reconhecimento facial. Oitenta anos os separam e, nesta revisão de arquivos do passado e do presente, o chileno denuncia o persistente desenho e controle do corpo das bixas, e nos convida a criar nossos próprios arquivos transviadxs.

O que se configura, por meio da convergência dessas múltiplas práticas discursivas, é uma plataforma que convida outros olhares e novas vozes para o diálogo e ação, em busca do compartilhamento de distintos modos de pensar e em direção ao reconhecimento das convergências e dissonâncias que nossas experiências diversas têm em comum.

Guilherme Altmayer
curador

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Para saber mais sobre os artistas e a terceira edição do Arte e Ativismo na América Latina, clique aqui.

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Fotos: Denise Adams e Frederico Pellachin