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Arte e Ativismo na América Latina – ano III (2018)

Projetos
Ano III - 2018

Arte e Ativismo na América Latina é um projeto da Despina, realizado em parceria com a organização holandesa Prince Claus Fund, que se estende por três anos (2016, 2017 e 2018). A cada ano, um tema norteia uma série de ações que incluem oficinas, conversas, projeções de filmes, exposições, ocupações, encontros públicos com nomes importantes do pensamento artístico contemporâneo e um programa de residências artísticas. Nesta 3ª edição (2018), o projeto teve como tema “DISSENSO E DESTRUIÇÃO” e aconteceu entre maio e junho.

Três artistas foram contemplados com uma bolsa para participar de uma residência especial de dois meses na Despina. Esta residência ocorreu em sintonia com o propósito do projeto de promover o encontro entre artistas e ativistas latino-americanos para que novas narrativas – mais democráticas, transgressoras e multiculturais – sejam desenvolvidas, difundidas, amplificadas e ouvidas. Para essa terceira edição, o objetivo é convergir práticas que abordem questões relativas à criação de novos mundos, com o intuito de articular outros modos de organização, meios de subjetivação, formas de sociabilidade, modelos de produção, sistemas de troca, mecanismos de remuneração e metodologias de educação: existências transformadoras capazes de exercitar outras maneiras de viver, focadas nos afetos e partilha do comum.

Cerca de 150 profissionais ligados à cultura e ao ativismo foram convidados a participar da primeira fase do projeto, indicando artistas e ativistas que estivessem alinhados de alguma maneira com a temática dessa terceira edição. O Comitê de Seleção, formado pelos curadores Guilherme AltmayerPablo León de la Barra, e pela diretora artística e de projetos da Despina, Consuelo Bassanesi, recebeu aproximadamente 70 indicações e, a partir desse recorte, selecionou três nomes: a brasileira Ana Lira, a boliviana Danitza Luna e o chileno Felipe Rivas.

Durante os meses de maio e junho, os três artistas ocuparam ateliês de residência na Despina e desenvolveram suas pesquisas e projetos em resposta às novas interlocuções e ao novo ambiente. Também participaram de uma série de atividades, como conversas, seminários, oficinas, visitas a universidades públicas, entre outras ações. Ao final da residência, foram reunidas as pesquisas e processos dos três artistas na mostra “Dissenso e Destruição” (mais informações, incluindo texto crítico e registros, por aqui).

Dois destaques da programação desta edição: o ato-intervenção “Noite Estranha: cuidado, convivência, agência”, concebido por Gabe PassareliMarta SupernovaClarissa Ribeiro e Lorran Dias, em diálogo com a vida, obra e poética de Matheusa Passareli (mais informações, incluindo textos críticos e registros, por aqui) e a Oficina-processo: cartografia ativa de redes de cuidado e criação, coordenada pela artista e pesquisadora Cristina Ribas (mais informações, por aqui).

Confira no final desta página a cobertura completa em fotos da terceira edição.

Sobre os residentes da 3ª edição

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Ana Lira é uma artista e ativista brasileira que vive e trabalha em Recife (Pernambuco, Brasil). As suas experiências artísticas buscam discutir vivências políticas e ações coletivas como processos de mediação. Relações de poder e implicações nas dinâmicas de comunicação estão entre os seus principais interesses no desenvolvimento de projetos, que articulam narrativas visuais, material de imprensa, mídias impressas e publicações independentes. É especialista em Teoria e Crítica de Cultura e, nos últimos anos, também desenvolveu trabalhos independentes de pesquisa, curadoria, além de projetos educacionais articulados com projetos visuais. Participou de mais de sete coletivos durante duas décadas. É articuladora dos projetos educacionais Cidades Visuais, Entre-Frestas e Circuitos Possíveis, este último relacionado à elaboração de fotolivros e fotozines. Recebeu o Prêmio Funarte Arte Contemporânea 2015 pela exposição Não-Dito, que foi apresentada no MABEU/CCBEU em Belém (2017) e no Capibaribe Centro da Imagem, em Recife (2015). É autora do livro Voto, publicado pela editora independente Pingado Prés, em 2014 (1ª ed.) e 2015 (2ª ed. – traduzida), que hoje integra o acervo da Pinacoteca de São Paulo e a coleção de fotolivros do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, no Museu da UFPA (Belém do Pará). Também é pesquisadora em projetos audiovisuais – atualmente está iniciando uma pesquisa para o projeto Terrane, uma narrativa visual sobre as mulheres pedreiras do semiárido brasileiro, a partir da experiência da Casa da Mulher do Nordeste. Durante a sua residência na Despina, Ana procurou investigar as relações e dinâmicas entre visibilidade e poder, por meio do mapeamento de saberes e compartilhamento de informações-em-cultura que não passam pelos grandes circuitos de comunicação. A artista coordenou a oficina “Sobre um sentir insurgente”, que aconteceu no nosso espaço durante 5 segundas-feiras. Mais informações, por aqui.

 

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Danitza Luna é uma mulher feminista boliviana, cartunista e designer gráfica, que vive e trabalha em La Paz. É formada em Artes Visuais pela Universidad Mayor de San Andrés, com especialização em escultura. Desde 2011, integra o movimento político anarco-feminista “Mujeres Creando”, uma das plataformas de arte e ativismo mais importantes e influentes do seu país, que desenvolve projetos artísticos de intervenção e performance em espaços públicos, além de oficinas de arte e serigrafia e programas educacionais em universidades e sindicatos de mulheres. Dentre as exposições recentes que participou como parte do movimento, destaque para a mostra “Muros Blandos”, no Museu da Solidariedade Salvador Allende, em Santiago do Chile (2017), onde desenvolveu, junto com as artistas Esther Angollo e Maria Galindo, uma série de murais provocativos e irônicos que ressaltaram algumas polêmicas políticas e religiosas. Já em 2016, desenvolveu especialmente para a Bienal Internacional de Artes da Bolívia (também com Esther e Maria) os projetos de intervenção pública “Altar Blasfemo” e “Escudo Anarco-Feminista Antichauvinista”, que ocuparam o muro externo do Museu Nacional de Arte da Cidade de La Paz. E em 2015, participou do Encontro Internacional de Arte de Medelín – “Historias Locales / Prácticas Globales”, na Colômbia, onde ministrou com demais membros do coletivo a oficina de serigrafia “Grafica Feminista, No acepto ser cosificada”, no Museu de Antioquia. Os resultados dessa experiência foram exibidos em um mural público na ruas de Medelín. Durante a sua residência na Despina, Danitza coordenou uma oficina gráfica feminista gratuita, dividida em sete encontros. Os resultados gráficos dessa experiência coletiva foram compilados em uma memória impressa com tiragem gratuita. Mais informações, por aqui.

 

felipe_inner4Felipe Rivas San Martín é um artista e ativista chileno, que vive e trabalha em Valência, Espanha, onde atualmente é bolsista de doutorado na Comissão Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, CONICYT, da Universidade Politécnica de Valência (UPV). É mestre em Artes Visuais pela Universidade do Chile. Sua produção artística compreende pintura, desenho, performance e vídeo em confluência com a imagem tecnológica (interfaces virtuais, codecs digitais). É co-fundador do Coletivo Universitário de Dissidência Sexual, CUDS, plataforma de ativismo que participa desde 2002. Dirigiu as revistas de crítica e cultura queer “Torcida” (2005) e Disidenciasexual.cl (2009). Rivas vincula ativismo e produção artística com pesquisa, texto e curadoria relacionados à arte, política e tecnologias, teoria queer, pós-feminismo e performatividade. Durante a sua residência no Rio de Janeiro, Felipe irá apresentar questões que transitam por sua pesquisa, como as tecnologias disciplinares e de controle às quais os corpos homossexuais são submetidos. Para tanto, pretende utilizar como foco inicial o caso dos homossexuais do Rio de Janeiro nos anos 30 do século passado, quando serviram de objeto de estudo para o livro “Homossexualismo e Endocrinologia” (Leonidio Ribeiro, 1938). Essas técnicas foram atualizadas com a nova lógica de dados e algoritmos computacionais, incluindo projetos que visam identificar a orientação sexual de pessoas com base em análises biométricas e algorítmicas. A noção de “dados” tem um duplo sentido: de um lado, refere-se aos dados, isto é, ao fenômeno da “informatização da sexualidade”. Por outro lado, “dados” refere-se ao tempo. Segundo Felipe, essas tecnologias de poder vão além do tempo e forçam o ativismo a pensar sobre a temporalidade das lutas. Daí surge a sua proposta de um ” Retrofuturismo Queer “, como uma metodologia para abordar esses problemas do ativismo atual diante das tecnologias do poder. “Retrofuturismo Queer” pretende projetar o futuro do poder e das lutas maricas, através de um olhar sobre o passado de enfrentamentos e experiências de violência.

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A seguir, um pequeno ensaio sobre o tema da terceira edição.

Dissenso e destruição

Como um terremoto, práticas artísticas e ativistas, através de ações vanguardistas e revolucionárias, podem provocar rachaduras em estruturas tidas até então como inabaláveis. Há muito que formas discordantes de organização da vida coexistem – paralelas, clandestinas ou mesmo em conflito – com modelos normativos e dominantes.

Diante da imperfeição inconteste dos sistemas sociais e políticos em curso, embasados na desigualdade, indiferença e injustiça, que outras formas de sobrevivência serão possíveis a partir deste cenário distópico?

Propomos, alicerçados nesta pergunta, articular estratégias de ação confluentes para que seja possível a derrubada, o desmoronamento e a implosão das hegemonias: para pensar novos futuros.

Neste terceiro ano do projeto Arte e Ativismo na América Latina, lançaremos olhares sobre aquelxs que transformam descontentamento em ideias incendiárias e conspirações cotidianas, tendo como ferramentas de luta espaços de colaboração para a insurreição e configurações de redes de contraconduta.

Entre temas tão relevantes e urgentes como racismo, deslocamentos em massa, extermínio indígena, violência de gênero, notícias falsas, perseguições políticas, processos de normatização e moralização de corpos, discursos e práticas, serão bem vindas propostas em campos como inteligência artificial, criptomoedas, afrofuturismo, desconstrução da branquitude, hacktivismo, algoritmos, regulação de redes, ativismo jurídico, metodologias ativas de educação, saúde comunitária, espaços e sistemas alternativos de arte e cultura, práticas agrícolas alternativas, ficção especulativa, entre tantos.

Buscamos existências dissonantes, tensionamentos em curso, posicionamentos radicais; não como mera alegoria, mas como abertura de brechas nos sistemas operativos econômico, político e social. Contravenções que ofereçam alternativas para cohabitar o presente, em plena aceleração do processo de ruína, que já não suportamos mais contradizer sem contra-atacar.

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Galeria de Fotos 1 (navegue pelas setas na horizontal)
Programa de residências, encontros, conversas, seminários, oficinas, etc.
Fotos: Frederico Pellachin

Galeria de Fotos 2 (navegue pelas setas na horizontal)
Noite Estranha: Cuidado, Convivência, Agência
Fotos: Denise Adams

Galeria de Fotos 3 (navegue pelas setas na horizontal)
Exposição “Dissenso e Destruição”
Fotos: Denise Adams e Frederico Pellachin

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Equipe
Concepção e coordenação do projeto: Consuelo Bassanesi
Concepção e coordenação da terceira ediçao: Consuelo Bassanesi e Guilherme Altmayer
Interlocução curatorial: Bernardo José de Souza, Guilherme Altmayer e Guilherme Marcondes
Produção, Comunicação e Documentação: Frederico Pellachin
Assistente de Produção: Pablo Ferretti
Gestão Financeira e Jurídica: Clarice Goulart Correa
Comitê de Seleção: Consuelo Bassanesi, Guilherme Altmayer e Pablo León de la Barra

Artistas selecionados nos anos anteriores:
Ano I- 2016 (Tema: Espaço Público)
Bubu Negrón (Porto Rico)
Crack Rodriguez (El Salvador)
Luciana Magno (Belém, Brasil)
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Ano II – 2017 (Tema: Corpo)
Carlos Martiel (Cuba)
Cristiano Lenhardt (Recife, Brasil)
Mariela Scafati (Argentina)

 

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